Ocorrendo de dois em dois anos e tendo nos seus primórdios a comemoração de uma boa safra, a Festa da Uva é um dos principais expoentes a nível nacional da cidade de Caxias do Sul e consequentemente, das suas raízes, costumes e desenvolvimento. Tal festa transcorre no tempo e já está em sua 40° edição, consagrando-se como um evento grandioso, e que vem ressaltar, agora, a pujança econômica caxiense tendo por base a cultura dos primeiros imigrantes italianos, ou seja, a exaltação a religião, ao trabalho e a família. Os primeiro imigrantes que chegaram guiavam-se por essa ética, e assim deixaram suas marcas na fundação de diversas cidades, como Caxias. Ao longo do século XX tudo foi evoluindo e se modificando, conceitos caíram, outros se firmaram, manifestações culturais surgiam pelo mundo todo. Muita gente, de toda a região e de todo o Estado migram para Caxias todos os dias a ponto de termos aqui, atualmente, uma pequeníssima quantidade de descendentes totalmente diretos dos primeiros imigrantes. Isso não é motivo para não comemorarmos a Festa, é claro. O motivo é outro.
É justamente a cultura dominante mantida a custa de todas as outras, e acredito que os valores como os já citados perpetuam no dia a dia desta cidade que se imagina grande, mas em decorrência do pensamento provinciano de alguns é apenas uma cidadezinha inculta, fechada no trabalho, cultuando valores ancestrais e procurando deste modo, manter e principalmente ostentar algum padrão econômico-cultural medíocre. Outro ponto é a fé e a família, e é mais precisamente na família a principal demonstração viva do patriarcal ismo e conseqüente subordinação da mulher ainda existente em pleno 2011. É obvio também que isso não existe apenas em Caxias do Sul, que a subordinação feminina vai muito além do patriarcalismo dos primeiros imigrantes, mas é inegável que essa herança foi passada, praticada e ainda demonstrada publicamente e é de fato parte da cultura dominante. Visando a histórica luta feminina, sendo em Caxias ou no resto do mundo, e suas conquistas até então, é de se considerar absurdo manifestações e praticas favoráveis a tal submissão nos dias de hoje. E é exatamente isso que nossa cidade vem demonstrar na sua orgulhosa Festa. A principio, a comissão organizadora é composta apenas pelo sexo masculino. A representação feminina fica a cargo das rainhas e princesas, que cumprem, obviamente, um dos papeis da mulher: usar a beleza para ser um atrativo, um enfeite e nada mais. E Caxias tem uma longa história de concursos de beleza sem fundamento nenhum, talvez em uma tentativa equivocada de incluir a mulher em algo público, para ficar sorrindo e acenando inutilmente durante um ano ou dois.
Agora resolveram inovar, incluir a mulher na administração da festa, afinal, nem só os homens fizeram Caxias do Sul e a figura da mulher imigrante está lá na BR, ao lado de seu homem, com um filho nos braços, merecendo a nossa completa admiração. O mérito dessas mulheres mães, esposas, rainhas do lar, apaziguadoras, frágeis, fortes, bondosas, trabalhadoras, jamais deve ser esquecido de nossa história. Porem já é tempo de se reconhecer e se dar o devido valor a mulher além das quatro paredes de sua casa, além da dedicação ao marido e aos filhos, e é por isso, por essa independência e reconhecimento que as mulheres lutam. Querem ser alguém alem da esposa do fulano, mãe de beltrano, enfim, somos mais do que nossa vida privada. Ocupamos diversos postos no mercado de trabalho, estudamos, nos dedicamos a ser algo mais que um alguém secundário, uma figura de beleza estética, ou sofrida por ser mulher.
Tudo isso vem de encontro a uma noticia que recebi nos últimos dias: as esposas farão par com seus maridos na organização da Festa da Uva. Alguns dizem “e por que não?”, afinal é tão bonito um casal que trabalha junto! Ok, mas, e a mulher em si, onde está? Por que não pode participar da Festa senão como acompanhante, assistente, secretária, ou é claro, figura de representação estética? Ainda é preciso estar casada para ter um devido reconhecimento? Isso é um valor arcaico que não cabe mais e deveria ser extirpado nos dias de hoje. E se não foi essa a intenção, pelo menos é o transpareceu, e claramente. Pelo visto, por mais que uma mulher se esforce, nunca vai conseguir ser alem de uma sombra de alguém, um objeto incapaz. E olha que temos ótimos exemplos na história de Caxias de mulheres que nunca precisaram de um marido, ou um pai, ou um filho reconhecido para ser alguém na vida. Essa manutenção de certos valores machistas e já ultrapassados só pode acontecer aqui em Caxias na nossa digníssima festa cujo objetivo só pode ser a aculturação. Não estou aqui me colocando contra a festa, ou contra a cidade, as tradições devem sim ser rememoradas, mas alguns conceitos evoluem ao longo da história e é uma completa falta de vergonha a manutenção de alguns deles.
Por Simone
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